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INVERSÃO DE VALORES
Em tempos de PCC, roubalheira geral, incompetência e pasmaceira total de governantes, assassinatos hediondos, mídia tupiniquim ensandecida com a quantidade de “shows” para apresentar em horários não tão nobres assim, vem-me à lembrança um texto enviado à redação do jornal O Estado de São Paulo, em 13/09/2003.
Naquela época, o leitor Marcelo de Araújo Aquino Gallo manifestara sua indignação quanto à falta de atitude do Estado e das pessoas em relação a tudo o que acontece neste País. O texto “falava” sobre uma terrível inversão de valores da população em geral (comportamento), sobre governantes corruptos, falta de ideais, bandidos soltos e cidadãos honestos vivendo em casas com grades (presos?).
Reparou na data da publicação – 13/09/03? Pois é, já se vão quase três anos, mas o texto parece ter sido escrito ainda ontem…
“Fui criado com princípios morais comuns. Quando criança, ladrões tinham a aparência de ladrões e nossa única preocupação em relação à segurança era a de que os ‘lanterninhas’ dos cinemas nos expulsassem devido às batidas com os pés no chão quando uma determinada música era tocada no início dos filmes, nas matinês de domingo.
Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas, dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos, e/ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder deseducadamente a policiais, mestres, aos mais idosos, autoridades. Confiávamos nos adultos porque todos eram pais e mães de todas as crianças da rua, do bairro, da cidade. Tínhamos medo apenas do escuro, de sapos, de filmes de terror.
Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo que perdemos. Por tudo que meus filhos um dia temerão. Pelo medo no olhar de crianças, jovens, velhos e adultos. Matar os pais, os avós, violentar crianças, seqüestrar, roubar, enganar, passar a perna, tudo virou banalidade de notícias policiais, esquecidas após o primeiro intervalo comercial.
Agentes de trânsito multando infratores são exploradores, funcionários de indústrias de multas. Policiais em blitz são abuso de autoridade. Regalias em presídios são matéria votada em reuniões. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem é ser otário. Pagar dívidas em dia é bancar o bobo, anistia para os caloteiros de plantão. Ladrões de terno e gravata, assassinos com cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos.
O que aconteceu conosco?
Professores surrados em sala de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas portas e janelas. Crianças morrendo de fome, gente com fome de morte.
Que valores são esses?
Carros que valem mais do que abraço, filhos querendo-os como brindes por passar de ano. Celulares nas mochilas dos que recém-largaram as fraldas. TV, DVD, telefone, video game, o que vai querer em troca desse abraço, meu filho?
Mais vale um Armani do que um diploma. Mais vale um telão do que um papo. Mais vale um baseado do que um sorvete. Mais vale dois vinténs do que um gosto. Que lares são esses? Bom dia, boa noite, até mais. Jovens ausentes, pais ausentes, droga presente e o presente uma droga.
O que é aquilo? Uma árvore, uma galinha, uma estrela. Quando foi que tudo sumiu ou virou ridículo? Quando foi que esqueci o nome do meu vizinho? Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado, sem sentir medo? Quando foi que fechei a janela do meu carro?
Quando foi que me fechei?
Quero de volta a minha dignidade, a minha paz. Quero de volta a lei e a ordem, a liberdade com segurança. Quero tirar as grades da minha janela para tocar as flores. Quero sentar na calçada e ter a porta aberta nas noites de verão. Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho. Quero a vergonha, a solidariedade e a certeza do futuro. Quero a esperança, a alegria. Teto para todos, comida na mesa, saúde a mil. Não quero listas de animais em extinção. Não quero clone de gente, quero cópia das letras de música, cultura e ciência.
Eu quero voltar a ser feliz!
Quero dizer basta a inversão de valores e ideais. Quero mandar calar a boca de quem diz ‘a nível de’, ‘enquanto pessoa’, ‘visa resgatar’. Quero xingar quem joga lixo na rua, quem fura a fila, quem rouba, quem ultrapassa a faixa, quem não usa cinto, quem não dignifica meu/seu voto. Quero rir de quem acha que precisa de silicone, lipoaspiração, dieta, cirurgia plástica, carro zero, laptop, bolsa XYZ, calça XYZ para se sentir inserido no contexto ou ser ‘normal’.
Abaixo o ‘ter’ e o ‘ser’!
E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa como um céu de abril, leve como uma brisa da manhã! E definitivamente comum, como eu. Adoro meu mundo simples e comum. Vamos voltar a ser ‘gente’? Ter o amor, a solidariedade, a fraternidade, a família como base. A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito. Discordar do absurdo. Construir sempre um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas.
Utopia? Não… Se você e eu fizermos nossa parte e contaminarmos mais pessoas, e essas pessoas contaminarem mais pessoas, hein?! Quem sabe?
Por um mundo mais humano!”
É… este Brasil precisa de mais Marcelos de Araújos Aquinos Gallos.
Boa semana e boas aulas.
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